Cliente devolvendo carrinho de supermercado em área sinalizada no estacionamento, em frente a um supermercado.

O carrinho no estacionamento: por que o pensamento coletivista é a inteligência em rede

Por que devolver o carrinho no supermercado revela a inteligência coletiva? O pensamento cooperativista constrói comunidades sustentáveis....

Você já passou por isso: faz as compras, coloca as sacolas no carro e, ao se preparar para devolver o carrinho ao local correto, percebe que ele está a alguns metros de distância. O impulso é deixá-lo solto ali mesmo. Afinal, “não vai dar nada”. Mas esse pequeno gesto, repetido por dezenas de pessoas ao longo do dia, transforma o estacionamento em um campo minado de carrinhos soltos, arranhando carros, bloqueando vagas e exigindo que alguém gaste horas para recolhê-los. O que parece uma escolha individual insignificante revela, na verdade, uma questão: como enxergamos nosso lugar dentro da comunidade?

O pensamento coletivista não é a negação do indivíduo, como muitos críticos apressados sugerem. Ele é, na verdade, uma visão sistêmica e madura da realidade. É a percepção de que vivemos em rede, onde cada causa gera um efeito que, mais cedo ou mais tarde, retorna. Kropotkin (2009)¹ demonstrou que as espécies mais adaptadas à sobrevivência não são as mais competitivas, mas aquelas que desenvolveram laços mais fortes de cooperação. A natureza ensina o que a sociedade muitas vezes insiste em ignorar: a colaboração não é um ideal romântico, é uma estratégia evolutiva de sucesso.

No cooperativismo, essa lógica se materializa no dia a dia. Uma cooperativa não deve ser apenas uma estrutura econômica, ele pode ser uma escola de democracia e participação, um laboratório vivo onde as pessoas aprendem, na prática, que seus interesses individuais se realizam plenamente quando o coletivo também prospera. O cooperado que participa das assembleias, que fiscaliza a gestão e que contribui ativamente não está “fazendo um favor” aos outros, está garantindo a sustentabilidade do negócio do qual ele próprio depende. É nesse exercício cotidiano de ouvir, deliberar e decidir em conjunto que se forma a corresponsabilidade, a compreensão madura de que cada um é responsável não apenas por si, mas pelo funcionamento do todo. Uma cooperativa de crédito, por exemplo, distribui suas sobras de forma equitativa porque reconhece que a saúde financeira de um associado está entrelaçada com a saúde financeira de todos. Não há sucesso isolado onde todos são interdependentes.

Essa visão está diretamente ligada ao ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e ao ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes). Uma cidade não se torna sustentável apenas com políticas públicas de cima para baixo; ela precisa de cidadãos que compreendam seu papel na comunidade. Instituições eficazes são aquelas que educam seus membros para a corresponsabilidade, formando pessoas que enxergam o impacto de suas ações na rede social. O desenvolvimento sustentável exige uma transição: sair da lógica atomizada e isolada para a lógica madura da co-construção de condições melhores para todos.

Educar para a cidadania desde a base é o único caminho para fortalecer essa inteligência coletiva. Não se trata de heroísmo ou altruísmo forçado, mas de uma compreensão estratégica de que o todo sustenta a parte. O cooperativismo, com sua estrutura democrática e participativa, oferece o ambiente ideal para que essa aprendizagem aconteça de forma concreta, no dia a dia das pessoas. Afinal, devolver o carrinho ao suporte não é um favor ao supermercado, é um ato de consciência sistêmica. E uma sociedade que aprende a devolver o carrinho é uma sociedade que aprende a cuidar de si mesma.

O que você tem feito hoje que, sem perceber, está fortalecendo a rede ao seu redor?

¹Fonte: KROPOTKIN, Piotr. Ajuda Mútua: um fator de evolução. Tradução de Waldyr Azevedo Jr. São Sebastião: A Senhora Editora, 2009.

Deivid Ilecki Forgiarini
Deivid Ilecki Forgiarini

Deivid Ilecki Forgiarini é especialista em Identidade Cooperativista e Gestão, com a missão de descomplicar conceitos e conectar pessoas. Com uma abordagem leve e prática, acredita que boas ideias só fazem sentido quando promovem desenvolvimento sustentável, enxergando no cooperativismo uma importante ferramenta para transformar vidas e fortalecer comunidades. Atualmente, é professor na Universidade Federal do Acre e coordena o mestrado profissional em Administração Pública, após uma longa trajetória como coordenador da graduação na Escoop – SESCOOP/RS.

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