Você já reparou como a Seleção Brasileira, que encantou o mundo com seu futebol criativo, hoje muitas vezes parece uma equipe europeia qualquer? Em vez do drible e da improvisação, vemos passes seguros e marcação tática. Em vez de alegria, vemos robotização. Essa sensação incômoda de que algo se perdeu não é exclusiva do futebol. No cooperativismo, acontece o mesmo fenômeno: cooperativas que, para competir no mercado, deixam de lado sua essência e se transformam em cópias pálidas de empresas convencionais.
A identidade de uma cooperativa não está no seu porte ou no seu lucro, mas nos valores que a orientam: gestão democrática, participação, educação cooperativista e compromisso com o desenvolvimento dos associados (Cançado, Souza & Pereira, 2015). Quando uma cooperativa adota acriticamente as práticas das empresas de capital aberto, pode até crescer financeiramente, mas corre o risco de esvaziar seu propósito. Pesquisas recentes mostram que o alinhamento excessivo com práticas empresariais convencionais pode levar a uma crise de identidade, resultando inclusive na perda de associados para concorrentes capitalistas (Ouro-Salim, Fanho & Cissé Ba, 2025). A gestão democrática e a prática cooperativa autêntica são os pilares que evitam esse desvio (Omar, Rosalem & Cissé Ba, 2019).
O mesmo vale para o futebol brasileiro. Pesquisadores como Luiz Carlos Ribeiro (2003) mostram que o futebol sempre foi um elemento central na construção da identidade nacional. O estilo brasileiro, marcado pelo improviso, pela ginga e pela criatividade, não é fruto do acaso, mas de uma história social e cultural única (Ferreira, 2018). Ronaldo Helal (1997) já apontava o dilema: ao tentar se modernizar copiando modelos estrangeiros, o futebol brasileiro entra em choque com sua própria tradição, perdendo justamente aquilo que o tornava competitivo.
O paralelo é direto. Assim como o futebol brasileiro não precisa imitar a Europa para vencer, a cooperativa não precisa se disfarçar de empresa capitalista para prosperar. A originalidade é uma vantagem competitiva. A gestão democrática, a transparência e a preocupação com o desenvolvimento do território não são fraquezas. São ativos que o mercado convencional não tem. O problema não é buscar eficiência. É abrir mão da alma para obtê-la.
O verdadeiro caminho é inovar sem se descaracterizar. Ser profissional sem perder a identidade. Ser interessante sem deixar de ser cooperativo. Porque, no fim das contas, o que nos faz únicos é também o que nos faz fortes. A questão que fica é: sua cooperativa está jogando o jogo dos outros ou construindo o seu próprio estilo?

Deivid Ilecki Forgiarini é especialista em Identidade Cooperativista e Gestão, com a missão de descomplicar conceitos e conectar pessoas. Com uma abordagem leve e prática, acredita que boas ideias só fazem sentido quando promovem desenvolvimento sustentável, enxergando no cooperativismo uma importante ferramenta para transformar vidas e fortalecer comunidades. Atualmente, é professor na Universidade Federal do Acre e coordena o mestrado profissional em Administração Pública, após uma longa trajetória como coordenador da graduação na Escoop – SESCOOP/RS.
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