Trabalhadores realizam a colheita de uvas em fileiras de um amplo vinhedo.

O conselho que escuta: a verdadeira força de uma cooperativa

Coluna do professor Deivid Ilecki Forgiarini, especialista em Identidade Cooperativista e Gestão...

Imagine a cena: uma reunião de diretoria em uma grande empresa. Executivos discutem números, gráficos e metas de lucro para os acionistas. Agora imagine outra cena: em uma cooperativa, um pequeno agricultor, eleito por seus vizinhos, senta-se à mesa para decidir o futuro do negócio. Ele não domina planilhas financeiras, mas conhece a dor e a realidade de quem produz. Essa diferença, muda tudo. Um estudo¹ recente com cooperativas em Ruanda mostrou que os conselhos cooperativistas não funcionam (ou não deveriam funcionar) como os das empresas tradicionais, e essa descoberta nos ensina muito sobre o que realmente sustenta o cooperativismo.

Na empresa tradicional, quem tem mais ações tem mais poder, e o objetivo é um só: maximizar o lucro. Na cooperativa, a lógica é outra. Um membro equivale a um voto, independentemente do tamanho da sua produção, e a meta é dupla: gerar resultado para sobreviver, mas sem nunca abandonar a função social. O estudo revelou que o conselho cooperativista atua como um verdadeiro mediador. Ele não apenas fiscaliza o gerente, mas traduz as propostas técnicas para uma linguagem simples que os produtores entendem e constrói consenso entre os membros antes de qualquer votação na Assembleia Geral.

O que motiva esses conselheiros também é revelador. Eles não são escolhidos por currículos brilhantes, mas pelo prestígio e pela confiança que inspiram na comunidade. Não recebem salários altos, apenas uma ajuda de custo, e trabalham movidos pela solidariedade e pela compaixão pelo próximo. Conselhos menores, com poucos membros unidos, conseguem chegar a acordos de forma amigável, e as regras internas funcionam como um escudo para proteger a missão social da cooperativa. É a lógica da racionalidade substantiva em ação: a eficiência econômica a serviço dos valores humanos, e não o contrário. 

Essa forma de governança conecta-se diretamente ao ODS 16, que defende instituições participativas e responsáveis, e ao ODS 8, pois fortalece a dignidade de quem trabalha. Quando o conselho escuta, traduz e constrói consenso, a cooperativa não apenas cresce, mas distribui esse crescimento de forma justa, melhorando a vida de cada associado e da comunidade ao redor. O grande ensinamento é que a cooperativa não precisa imitar a empresa tradicional para ter sucesso. Sua força está justamente no que a torna diferente: a democracia, a participação e o cuidado com as pessoas. Um conselho que media, que ouve e que protege a missão é mais valioso do que qualquer balanço financeiro.

Sua cooperativa tem um conselho que apenas fiscaliza ou um conselho que verdadeiramente escuta os cooperados? O futuro do nosso modelo depende de líderes que enxerguem as pessoas antes dos números.

¹Ndizeye, I., Jansson, A., Teh, C., & Shema, J. B. (2026). Board involvement in strategic decision-making: The case of Rwandan cooperatives. Africa Journal of Management. https://doi.org/10.1080/23322373.2026.2688062

Deivid

Deivid Ilecki Forgiarini é especialista em Identidade Cooperativista e Gestão, com a missão de descomplicar conceitos e conectar pessoas. Com uma abordagem leve e prática, acredita que boas ideias só fazem sentido quando promovem desenvolvimento sustentável, enxergando no cooperativismo uma importante ferramenta para transformar vidas e fortalecer comunidades. Atualmente, é professor na Universidade Federal do Acre e coordena o mestrado profissional em Administração Pública, após uma longa trajetória como coordenador da graduação na Escoop – SESCOOP/RS.

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