Imagine entrar na sua cooperativa e encontrar um ambiente impecável, tecnologia de ponta e sobras recordes, mas sentir que o antigo vínculo de pertencimento deu lugar a uma frieza protocolar.
Você é atendido com rapidez, mas não se sente mais o dono do negócio. Se os números crescem, mas o cooperado se percebe apenas como um cliente, estamos diante de uma vitória real ou de uma perda silenciosa de identidade? Essa é uma dúvida que atinge muitos associados que veem suas instituições prosperarem financeiramente enquanto o calor humano e a participação parecem diminuir.
Essa tensão ocorre entre o que chamamos de racionalidade instrumental, que foca no cálculo, no lucro e na eficiência técnica, e a racionalidade substantiva, que é orientada por valores, pela ética e pela dignidade humana (Guerreiro Ramos, 1981). Em um mundo cada vez mais voltado para resultados imediatos, é fácil cair na armadilha de achar que o sucesso de uma cooperativa se resume ao saldo bancário.
No entanto, a gestão deve ser societal, servindo como um laboratório de democracia onde a eficiência econômica é apenas o meio necessário para fortalecer a participação social e o bem-estar coletivo (Paes de Paula, 2005).
Essa dualidade se manifesta em vários tipos de cooperativa. No crédito, o sucesso é o uso do capital para apoiar os sonhos do sócio. Na infraestrutura, de nada adianta a rede mais moderna se o serviço não chega com preço justo às áreas remotas. Na agropecuária, a produtividade perde o sentido se o produtor vira mero fornecedor, sem voz na estratégia. Nos seguros, o resultado é vazio se, no sinistro, o acolhimento humano é trocado por uma burocracia fria.
As cooperativas educam para a corresponsabilidade, criando um ambiente onde o sucesso de um depende do grupo. Como escola de democracia, o cooperativismo permite que o cidadão aprenda a decidir e a cuidar do que é seu. O verdadeiro sucesso equilibra a solvência com a participação real, garantindo que as organizações não sejam engolidas pela técnica (Favoreto e Rezende, 2024).
Essa visão está ligada ao ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e ao ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes). O desenvolvimento de um território depende de instituições que formem pessoas. A economia deve servir às pessoas, garantindo que a cooperativa seja um projeto de vida coletiva que melhora a realidade de todos.
Como associado, você tem olhado apenas para as sobras ou busca enxergar o impacto real da cooperativa na sua vida? O futuro do modelo exige o ser humano de volta ao centro da gestão.

Deivid Ilecki Forgiarini é especialista em Identidade Cooperativista e Gestão, com a missão de descomplicar conceitos e conectar pessoas. Com uma abordagem leve e prática, acredita que boas ideias só fazem sentido quando promovem desenvolvimento sustentável, enxergando no cooperativismo uma importante ferramenta para transformar vidas e fortalecer comunidades. Atualmente, é professor na Universidade Federal do Acre e coordena o mestrado profissional em Administração Pública, após uma longa trajetória como coordenador da graduação na Escoop – SESCOOP/RS.
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