Poda no vinhedo durante o inverno

Inverno nos vinhedos: os cuidados que influenciam na próxima safra 

Chegada do inverno exige cuidados especiais no vinhedo para garantir a produtividade durante todo o ciclo....

Embora os vinhedos pareçam mais silenciosos e discretos durante os meses mais frios do ano, o inverno é uma fase decisiva para a viticultura. Os cuidados realizados durante a estação impactam diretamente o potencial produtivo da próxima safra.

No hemisfério sul, o inverno tem início no dia 21 de junho e vai até o dia 22 de setembro. Porém, a queda das temperaturas pode começar antes ou se estender para depois desse período.

Em 2026, esse trabalho ganha ainda mais relevância diante das previsões climáticas que apontam para um inverno influenciado por condições atmosféricas que exigem atenção dos produtores, como o fenômeno Super El Niño. 

Entenda no texto a seguir quais são os principais cuidados aos quais os produtores precisam estar atentos para que os vinhedos iniciem o próximo ciclo produtivo em condições ideais. 

O que acontece com os vinhedos no inverno? 

O inverno marca uma etapa natural do ciclo da videira conhecida como dormência. Trata-se de um mecanismo fisiológico que permite à planta suportar temperaturas mais baixas e reservar energia para o próximo período de crescimento. 

Durante essa fase, as folhas já caíram, o crescimento vegetativo é interrompido e a atividade metabólica da planta diminui significativamente. À primeira vista, os vinhedos podem parecer improdutivos, mas internamente as videiras continuam realizando processos importantes relacionados ao armazenamento de reservas energéticas.

De acordo com o gerente agrícola da Cooperativa Vinícola Aurora, Maurício Bonafé, a redução das horas de luz durante o dia e a chegada do frio ativam o processo de “descanso” da videira. 

“Este período é fundamental, pois ajuda na diferenciação da gema e com o acúmulo de horas de frio, o processo de finalização da fertilidade das gemas acontece. Ou seja, o processo de dormência é fundamental para que aconteça uma boa brotação e boa produtividade para a próxima safra”, explicou. 

Quais são os cuidados necessários durante o inverno? 

Inverno
Inverno exige cuidados com os vinhedos.

A qualidade das uvas é resultado de um conjunto de fatores que se acumulam ao longo de todo o ciclo produtivo. Muitos deles começam a ser definidos ainda durante o inverno.

Segundo Bonafé, os trabalhos no período estão voltados à recomendação de ajustes pontuais nos vinhedos, coleta de solo para as devidas correções, reposição de nutrientes extraídos pela uva na última safra, recomendação de semeadura de cobertura para proteger o solo da erosão e perda da camada mais fértil. 

“Também fizemos um trabalho já consolidado na cooperativa que é referente ao entendimento da fertilidade de gemas, com intuito de entender o potencial produtivo das variedades, para posteriormente indicarmos a recomendação de poda. Isso nos permite ser mais assertivos perante a demanda de produção da cooperativa e toda a parte de comportamento climático do ano, buscando o equilíbrio dentro do processo de produção das uvas”, completou. 

Quando os manejos de inverno são realizados de forma adequada, as videiras iniciam a primavera mais equilibradas, reduzindo problemas fitossanitários e favorecendo a formação de cachos de melhor qualidade.

Por outro lado, falhas nesse período podem gerar impactos que acompanham a planta durante todo o ciclo, comprometendo produtividade, uniformidade e qualidade da colheita.

Poda 

Entre todas as atividades realizadas nessa época do ano, a poda é uma das mais importantes. A chamada poda seca, por exemplo, consiste na remoção seletiva de ramos formados nos ciclos anteriores. O objetivo é organizar a estrutura da planta e definir o potencial produtivo da próxima safra.

Essa prática controla o vigor da planta, dita a qualidade e o tamanho dos cachos para garantir uma brotação uniforme e, consequentemente, elevar a produção.

Monitoramento climático 

As informações sobre temperatura, umidade, precipitação, velocidade do vento e risco de geadas ajudam os produtores a tomar decisões mais precisas e reduzir perdas.

O acompanhamento permite avaliar a necessidade de intervenções específicas, planejar o momento ideal para a poda e antecipar estratégias de manejo, caso seja necessário, para minimizar o impacto na produtividade. 

Super El Niño e o impacto nos vinhedos 

Segundo a previsão do Climatempo, o inverno na Serra Gaúcha em 2026 deverá ser marcado por uma precipitação acima da média ao longo de todo o trimestre (de julho a setembro). Já no período inicial da estação, a projeção é um início típico, com frio e geada. Porém, o principal fator que deve influenciar no inverno de 2026 é o Super El Niño.

O fenômeno El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global e influencia os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta, incluindo a América do Sul.

Quando esse aquecimento ocorre de forma excepcionalmente intensa, utiliza-se o termo Super El Niño. Segundo Bonafé, esse fenômeno é conhecido por trazer bastante chuva à região Sul do Brasil. 

“Possuindo essas informações, o setor agrícola da Cooperativa cria um protocolo de manejo, onde se consegue passar por todo esse período de maiores volumes de chuva sem perdas significativas na produção, ou minimizando as mesmas”, afirmou.

Nesse período, é importante estar atento a oscilações de temperatura, que podem influenciar a brotação, e ao excesso de umidade, que favorece a ocorrência de doenças fúngicas. 

“A atenção da equipe técnica está totalmente atenta a esse tipo de situação, onde nós precisamos redobrar os cuidados, redobrar os manejos, intensificar alguns trabalhos, e cuidar do equilíbrio da adubação para conseguirmos fazer uma boa safra”, completou Bonafé. 

Safra na Vinícola Aurora 

A safra de 2025/2026 na Vinícola Aurora alcançou o seu maior patamar em 95 anos de história. Durante três meses, entre o final de dezembro e o mês de março, foram colhidos 93 milhões de quilos de uva, volume 30% superior à vindima de 2025, que registrou 71,6 milhões de quilos processados. 

O resultado supera o desempenho de 2021, até então o recorde histórico, quando 90 milhões de quilos de uva foram transformados em vinhos, espumantes, sucos de uva e outros produtos vitivinícolas. 

Entre os fatores que proporcionaram esse aumento estão as condições climáticas favoráveis e o trabalho executado pelos produtores cooperados durante todo o ciclo produtivo.

Enquanto os vinhedos descansam sob o frio da Serra Gaúcha, produtores e equipes técnicas seguem trabalhando para preparar a próxima safra. É essa união entre natureza, conhecimento e cooperação que transforma cada ciclo em uma nova oportunidade de produzir uvas de qualidade e manter viva uma tradição que faz parte da história da região.